A coleta seletiva do DF triplicou em cinco anos
E a série tem uma armadilha em 2017 que faz o crescimento parecer maior do que é
Em 2020, o Distrito Federal coletou 18.311 toneladas de recicláveis. Em 2025, coletou 54.549. É um crescimento de 198% em cinco anos — a curva mais consistente de toda a série de indicadores do SLU.
Antes de comemorar, a parte chata.
A armadilha de 2017
Olhando o gráfico inteiro, a primeira coisa que salta é que 2014 e 2015 são mais altos que 2020. A série marca 48.586 t em 2014, sobe para 57.496 t em 2015, e depois despenca para 29.968 t em 2017.
Se você contar essa história como está, a manchete é “a coleta seletiva do DF caiu 48% e só agora se recuperou”. Seria falso.
O que muda em 2017 é o que entra na conta. Nos relatórios recentes, a linha nem se chama mais “coleta seletiva” — chama-se “coleta seletiva das empresas”. O número passou a medir o que as empresas contratadas recolhem, e não o total que circula pelo sistema, que incluía o material triado nas usinas e o trabalho das organizações de catadores.
Não achei, em nenhum dos doze relatórios, uma nota explicando essa troca. Ela se deduz do rótulo e da magnitude.
Então a série tem dois trechos que não se somam:
| Período | Rótulo | Faixa |
|---|---|---|
| 2014–2016 | “Coleta seletiva” | 48,6 a 57,5 mil t |
| 2017–2025 | “Coleta seletiva das empresas” | 18,3 a 54,5 mil t |
Toda comparação honesta fica dentro de um dos dois blocos.
Dentro do bloco que dá para comparar
Com 2017 como ponto de partida, o crescimento continua notável, e agora é defensável:
| Coleta seletiva das empresas, ano a ano | ||
| Dentro do único bloco que é comparável consigo mesmo | ||
| Ano | Toneladas | Variação no ano |
|---|---|---|
| 2017 | 29.968 | — |
| 2018 | 28.549 | −4,7% |
| 2019 | 28.522 | −0,1% |
| 2020 | 18.311 | −35,8% |
| 2021 | 31.866 | +74,0% |
| 2022 | 33.761 | +5,9% |
| 2023 | 44.681 | +32,3% |
| 2024 | 48.853 | +9,3% |
| 2025 | 54.549 | +11,7% |
| De 2021 a 2025 são cinco altas consecutivas. | ||
De 29.968 t (2017) para 54.549 t (2025): +82% em oito anos. E o mais interessante não é a média, é o formato da curva. Ela cai até 2020, encontra o fundo na pandemia (18.311 t, uma queda de 36% num único ano) e desde então sobe em todos os anos, sem exceção:
- 2021: +74%
- 2022: +6%
- 2023: +32%
- 2024: +9%
- 2025: +12%
Uma sequência de cinco altas consecutivas não é ruído. Alguma coisa mudou na operação.
O que a série não diz
Aqui eu preciso parar, porque a tentação é explicar o crescimento — e os dados que baixei não sustentam explicação.
Os relatórios registram a expansão da coleta seletiva porta a porta, a entrada de novas cooperativas de catadores em contrato, e a instalação de papa-recicláveis. Qualquer uma dessas coisas pode ser a causa. Mas as tabelas que permitiriam testar isso — tonelagem por cooperativa, por região administrativa, por ano — existem de forma esparsa e inconsistente ao longo dos doze PDFs. Achei quatro tabelas com número de catadores em toda a série, cobrindo 2014, 2017 e 2018.
Também não dá para calcular a taxa de recuperação, que é o número que realmente importa: quanto do resíduo gerado vira reciclável de fato. Para isso seria preciso a composição gravimétrica do lixo do DF, e ela aparece em texto corrido em alguns relatórios, sem tabela extraível.
Fica registrado o que dá para afirmar: a quantidade recolhida pelas empresas cresceu, de forma consistente, por cinco anos. E fica registrado o que não dá: por quê, e se isso representa uma fração maior do lixo total.
Uma nota sobre denominador
Uma última precaução. No mesmo período, a coleta domiciliar e comercial caiu: 844.186 t em 2014, 724.393 t em 2025. Com população maior.
Isso significa que a seletiva cresceu sobre um total menor — o que, se tudo mais for igual, torna o avanço proporcionalmente ainda maior. Mas “se tudo mais for igual” é a expressão mais perigosa da estatística aplicada, e a queda da coleta domiciliar tem candidatos a explicação que nada têm a ver com geração de lixo: maior rigor na pesagem, informatização das balanças, mudanças no perímetro do que o SLU coleta diretamente.
Esse é assunto para outro artigo. Aqui basta dizer: os dois números se movem em direções opostas, e nenhum dos dois é tão simples quanto parece.
Série completa, código e ressalvas em Relatórios Anuais do SLU/DF. Fonte primária: relatórios anuais do SLU, 2014 a 2025.
Dados, código e ressalvas: relatorios-slu.
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