A coleta seletiva do DF triplicou em cinco anos

E a série tem uma armadilha em 2017 que faz o crescimento parecer maior do que é

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E a série tem uma armadilha em 2017 que faz o crescimento parecer maior do que é
Data de Publicação

12 de agosto de 2026

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Em 2020, o Distrito Federal coletou 18.311 toneladas de recicláveis. Em 2025, coletou 54.549. É um crescimento de 198% em cinco anos — a curva mais consistente de toda a série de indicadores do SLU.

Figura 1: Coleta seletiva no DF, em toneladas por ano (2014–2025)

Antes de comemorar, a parte chata.

A armadilha de 2017

Olhando o gráfico inteiro, a primeira coisa que salta é que 2014 e 2015 são mais altos que 2020. A série marca 48.586 t em 2014, sobe para 57.496 t em 2015, e depois despenca para 29.968 t em 2017.

Se você contar essa história como está, a manchete é “a coleta seletiva do DF caiu 48% e só agora se recuperou”. Seria falso.

O que muda em 2017 é o que entra na conta. Nos relatórios recentes, a linha nem se chama mais “coleta seletiva” — chama-se “coleta seletiva das empresas”. O número passou a medir o que as empresas contratadas recolhem, e não o total que circula pelo sistema, que incluía o material triado nas usinas e o trabalho das organizações de catadores.

Não achei, em nenhum dos doze relatórios, uma nota explicando essa troca. Ela se deduz do rótulo e da magnitude.

Então a série tem dois trechos que não se somam:

Período Rótulo Faixa
2014–2016 “Coleta seletiva” 48,6 a 57,5 mil t
2017–2025 “Coleta seletiva das empresas” 18,3 a 54,5 mil t

Toda comparação honesta fica dentro de um dos dois blocos.

Dentro do bloco que dá para comparar

Com 2017 como ponto de partida, o crescimento continua notável, e agora é defensável:

Tabela 1
Coleta seletiva das empresas, ano a ano
Dentro do único bloco que é comparável consigo mesmo
Ano Toneladas Variação no ano
2017 29.968
2018 28.549 −4,7%
2019 28.522 −0,1%
2020 18.311 −35,8%
2021 31.866 +74,0%
2022 33.761 +5,9%
2023 44.681 +32,3%
2024 48.853 +9,3%
2025 54.549 +11,7%
De 2021 a 2025 são cinco altas consecutivas.

De 29.968 t (2017) para 54.549 t (2025): +82% em oito anos. E o mais interessante não é a média, é o formato da curva. Ela cai até 2020, encontra o fundo na pandemia (18.311 t, uma queda de 36% num único ano) e desde então sobe em todos os anos, sem exceção:

  • 2021: +74%
  • 2022: +6%
  • 2023: +32%
  • 2024: +9%
  • 2025: +12%

Uma sequência de cinco altas consecutivas não é ruído. Alguma coisa mudou na operação.

O que a série não diz

Aqui eu preciso parar, porque a tentação é explicar o crescimento — e os dados que baixei não sustentam explicação.

Os relatórios registram a expansão da coleta seletiva porta a porta, a entrada de novas cooperativas de catadores em contrato, e a instalação de papa-recicláveis. Qualquer uma dessas coisas pode ser a causa. Mas as tabelas que permitiriam testar isso — tonelagem por cooperativa, por região administrativa, por ano — existem de forma esparsa e inconsistente ao longo dos doze PDFs. Achei quatro tabelas com número de catadores em toda a série, cobrindo 2014, 2017 e 2018.

Também não dá para calcular a taxa de recuperação, que é o número que realmente importa: quanto do resíduo gerado vira reciclável de fato. Para isso seria preciso a composição gravimétrica do lixo do DF, e ela aparece em texto corrido em alguns relatórios, sem tabela extraível.

Fica registrado o que dá para afirmar: a quantidade recolhida pelas empresas cresceu, de forma consistente, por cinco anos. E fica registrado o que não dá: por quê, e se isso representa uma fração maior do lixo total.

Uma nota sobre denominador

Uma última precaução. No mesmo período, a coleta domiciliar e comercial caiu: 844.186 t em 2014, 724.393 t em 2025. Com população maior.

Isso significa que a seletiva cresceu sobre um total menor — o que, se tudo mais for igual, torna o avanço proporcionalmente ainda maior. Mas “se tudo mais for igual” é a expressão mais perigosa da estatística aplicada, e a queda da coleta domiciliar tem candidatos a explicação que nada têm a ver com geração de lixo: maior rigor na pesagem, informatização das balanças, mudanças no perímetro do que o SLU coleta diretamente.

Esse é assunto para outro artigo. Aqui basta dizer: os dois números se movem em direções opostas, e nenhum dos dois é tão simples quanto parece.


Série completa, código e ressalvas em Relatórios Anuais do SLU/DF. Fonte primária: relatórios anuais do SLU, 2014 a 2025.


Dados, código e ressalvas: relatorios-slu.

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