A década em que a máquina encolheu e a vacância não se mexeu

O que dez anos de dados de cargos públicos federais mostram — e o que não mostram

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O que dez anos de dados de cargos públicos federais mostram — e o que não mostram
Data de Publicação

26 de agosto de 2026

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Toda vez que sai uma reportagem sobre a máquina pública federal, aparece um número grande de cargos vagos. Duzentos e trinta mil, duzentos e cinquenta mil. O número vem de uma planilha que o governo publica todo mês e que quase ninguém abre duas vezes seguidas.

Eu abri 125 delas, de janeiro de 2016 a junho de 2026, e empilhei tudo numa série única. A pergunta era simples: o que aconteceu com a vacância no Executivo federal ao longo de uma década?

A resposta não é a que eu esperava.

As duas pontas

Janeiro de 2016 Maio de 2026 Variação
Cargos aprovados em lei 788.584 699.858 −88.726 (−11,3%)
Cargos ocupados 530.805 467.971 −62.834 (−11,8%)
Cargos vagos 257.779 231.887 −25.892 (−10,0%)
Taxa de vacância 32,69% 33,13% +0,44 p.p.

Em dez anos, a taxa de vacância do Executivo federal subiu menos de meio ponto percentual. Ficou praticamente parada.

O que se moveu foi o tamanho de tudo. Cargos autorizados, cargos ocupados e cargos vagos caíram todos em torno de 11% — quase na mesma proporção. O Executivo federal encolheu cerca de um nono ao longo da década, e encolheu de forma notavelmente uniforme.

Por que isso é mais interessante do que parece

Existem duas maneiras de uma máquina pública encolher.

Na primeira, você corta o que está vazio. Extingue cargos que ninguém ocupa, enxuga a estrutura autorizada até ela chegar perto da estrutura real. O resultado seria uma taxa de vacância caindo: menos buraco no papel, mesma gente trabalhando.

Na segunda, você encolhe tudo junto. Perde servidores e perde autorizações legais na mesma proporção, mantendo intacta a distância entre o que a lei permite e o que existe de fato.

Foi a segunda que aconteceu. A máquina não foi enxugada cortando o vazio — ela encolheu inteira, carregando o vazio junto. Um em cada três cargos que existem em lei segue sem ninguém dentro, exatamente como em 2016.

Figura 1: A taxa oscila dentro de uma faixa de três pontos ao longo de dez anos. Escala começando em zero para não exagerar a variação.

O que “cargo vago” não quer dizer

Antes de qualquer leitura, uma coisa precisa ficar clara sobre esse número. Em toda a série, sem uma única exceção em 24.196 linhas, vale a identidade:

\[\text{vago} = \text{aprovada} - \text{ocupada}\]

Não é aproximação: é definição contábil. E isso significa que “cargo vago” não mede posto de trabalho ocioso. Mede a distância entre o que a lei autorizou e o que está provido.

Um cargo criado por lei em 2012, nunca distribuído a órgão nenhum, nunca concursado, sem sala, sem mesa e sem chefia — conta como vago exatamente igual a um cargo do qual alguém se aposentou no mês passado.

São situações completamente diferentes. A planilha tem uma coluna que separa as duas, distribuida, e ela é a menos usada de todas. É assunto do próximo artigo, e é onde está o achado mais forte desta série.

A série completa

Figura 2: As três séries caem juntas. Faixas cinza marcam meses com quebra de série; tracejado vertical, os meses não publicados.

Os meses que joguei fora

Nenhuma série pública sobrevive a dez anos sem defeito. Esta tem quatro, e todos importam para quem for reproduzir os números acima.

Faltam dois meses. Fevereiro de 2019 e julho de 2025 não existem no acervo publicado. Não interpolei: a série tem buraco e o gráfico mostra buraco.

Junho de 2026 está corrompido. No último arquivo publicado, aprovada salta 3,3% de um mês para o outro e todas as colunas de vacância inflam de uma vez, de 1,2× a 4,4×. Nada disso é evento real. Foi descartado — e é por isso que a tabela lá em cima termina em maio de 2026, não em junho.

Março de 2018 tem dupla contagem. Sete códigos de órgão novos aparecem de uma vez, somando 22.758 cargos aprovados, enquanto os códigos antigos ainda não haviam saído. O total do painel salta +23.440 e devolve −34.455 no mês seguinte. Foi um mês de transição administrativa publicado com as duas estruturas sobrepostas.

Abril a junho de 2025 formam uma bolha. aprovada sobe 5,8% e devolve 5,6% dois meses depois.

ImportanteUm erro que eu cometi, e por que ele está aqui

A primeira versão desta análise usava junho de 2026 como ponto final e chegava a uma taxa de vacância de 35,1% — o que sugeria uma alta de 2,4 pontos na década.

Estava errado. Aquele mês está quebrado na origem, e eu só descobri porque montei uma rotina que varre a série atrás de variações mensais acima de 2% (o normal deste painel é abaixo de 1%).

Com o mês correto, a taxa é 33,13% e a alta é de 0,44 ponto. A conclusão do artigo inverteu: de “a vacância subiu” para “a vacância ficou parada enquanto a máquina encolheu”.

Deixo o registro porque é exatamente o que este projeto defende. O número que sai da planilha não é o número. É candidato a número até passar pela conferência.

Como reproduzir

Todo o processamento está em code/01_compilar.R — 125 planilhas mensais viram dois arquivos Parquet em cerca de dez minutos. A rotina de conferência que pegou o erro acima está em code/02_validar.R, e roda sozinha.

Os dados brutos originais estão versionados junto. Qualquer número citado aqui pode ser refeito do zero.


Próximo: Metade dos cargos “vagos” nunca existiu de verdade.


Dados, código e ressalvas: cargos-executivo-federal.

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