A água mineral ficou mais barata — e a média esconde o quanto
O preço do litro quase dobrou em quinze anos. Descontada a inflação, caiu — e caiu mais em cada embalagem do que no agregado
método
série histórica
inflação
mineração
O preço do litro quase dobrou em quinze anos. Descontada a inflação, caiu — e caiu mais em cada embalagem do que no agregado
Data de Publicação
21 de outubro de 2026
Compartilhar
Entre 2010 e 2025, o litro de água mineral vendido no Brasil passou de R$ 0,275 para R$ 0,533 — uma alta de 93,9%.
Lido assim, o número sugere que a água encareceu bastante. Ele não sustenta essa leitura. No mesmo período o IPCA acumulou 134,4%.
O preço subiu menos que tudo o mais
Mostrar código
serie <- nac |>pivot_longer(c(nominal, real), names_to ="tipo", values_to ="rs") |>mutate(tipo =recode(tipo,nominal ="Reais correntes",real =paste0("Reais de ", ANO_FIM)))rot <- serie |>filter(ano == ANO_FIM)p <-ggplot(serie, aes(ano, rs, colour = tipo)) +geom_line(linewidth =0.9) + ggiraph::geom_point_interactive(aes(tooltip =paste0("<b>", ano, "</b><br>", tipo, ": R$ ", n_br(rs, 3)),data_id = tipo), size =2.1) +geom_text(data = rot, aes(label = tipo), hjust =0, nudge_x =0.25,size =3.4, fontface ="bold", show.legend =FALSE) +scale_colour_manual(values =unname(PAL[c(1, 2)])) +scale_x_continuous(breaks =seq(ANO_INI, ANO_FIM, 5),limits =c(ANO_INI, ANO_FIM +6)) +scale_y_continuous(labels =label_number(prefix ="R$ ", accuracy =0.01,decimal.mark =","),limits =c(0, NA)) +coord_cartesian(clip ="off") +labs(title ="A alta do preço é menor que a da inflação",subtitle ="Preço médio do litro de água mineral vendida, Brasil",caption =paste0("Fonte: ANM, Anuário Mineral Brasileiro (RAL), snapshot de ", SNAPSHOT, ". Deflator: IPCA (BCB/SGS 433), snapshot de ", SNAPSHOT_IPCA, ".") )interativo(p, altura =4.2)
Figura 1
Em reais de 2025, o litro saiu de R$ 0,644 para R$ 0,533: uma queda de 17,3%.
O produto não encareceu. Ficou mais barato em relação ao restante do orçamento das famílias. É a diferença entre ler um número e ler um preço — e ela inverte a conclusão.
A queda é maior do que o agregado registra
Aqui o dado fica mais interessante, porque o agregado e seus componentes discordam.
Tabela 1: Preço real por embalagem, em reais do ano-base
Embalagem
2010
2025
Variação real
Garrafa de vidro
2,748
1,033
−62,4%
Garrafa plástica
1,965
1,341
−31,8%
Garrafão
0,239
0,186
−22,0%
Outras embalagens
0,807
0,768
−4,8%
Copo
1,669
2,159
29,4%
As duas embalagens que respondem por quase todo o volume caíram mais que o agregado: o garrafão 22,0% e a garrafa plástica 31,8%, contra 17,3% no total.
Como todo componente relevante cai mais que o conjunto? Porque o conjunto não é só preço — é preço e composição. Ao longo do período o volume migrou do garrafão para a garrafa plástica, que custa muito mais por litro. A mistura ficou mais cara enquanto cada item ficava mais barato, e o agregado registra os dois efeitos somados.
Para separá-los, basta congelar os pesos de 2010 e deixar variar só o preço:
Tabela 2: Preço real do litro: efeito de preço e efeito de composição
Medida
Início
Fim
Variação
Observado (composição de cada ano)
0,644
0,533
−17,3%
Pesos de 2010 congelados
0,644
0,473
−26,5%
Com a composição de 2010 mantida fixa, a queda real seria de 26,5%, e não de 17,3%. A diferença de 9,2 pontos percentuais é o efeito de composição isolado: é quanto a migração de embalagem empurrou a média para cima, mascarando a queda de preço.
A média nacional subestima a barateamento pela metade. Quem tomasse o agregado como resposta erraria não o sinal, mas a magnitude — e por muito.
E não existe um preço, existem vinte e sete
O agregado esconde uma segunda coisa: a média nacional não descreve bem nenhum estado em particular.
Mostrar código
p <-ggplot(puf, aes(rs_l, reorder(uf, rs_l))) +geom_segment(aes(x =median(puf$rs_l), xend = rs_l, yend =reorder(uf, rs_l)),colour = GRADE, linewidth =0.6) +geom_vline(xintercept =median(puf$rs_l), colour = EIXO, linewidth =0.4) + ggiraph::geom_point_interactive(aes(tooltip =paste0("<b>", uf, "</b><br>R$ ", n_br(rs_l, 3), " por litro","<br>", n_br(share, 1), "% do volume nacional"),data_id = uf), colour = PAL[["slot1"]], size =2.2) +scale_x_continuous(labels =label_number(prefix ="R$ ", accuracy =0.01,decimal.mark =","),limits =c(0, NA)) +theme(panel.grid.major.y =element_blank(),axis.text.y =element_text(colour = TINTA_2, size =rel(0.8)),plot.margin =margin(6, 12, 6, 6)) +labs(title ="O mesmo litro, preços muito diferentes",subtitle =paste0("Preço médio do litro em garrafão, por UF, ", ANO_FIM," — linha vertical é a mediana nacional"),caption =paste0("Fonte: ANM, Anuário Mineral Brasileiro (RAL). Snapshot de ", SNAPSHOT, ".") )interativo(p, altura =6)
Figura 2
O litro em garrafão custa R$ 0,095 na UF mais barata e R$ 0,552 na mais cara — 5,8 vezes. A mediana nacional é R$ 0,179.
Antes de transformar isso em ranking, uma ressalva que muda a leitura: os extremos são mercados pequenos. A UF mais cara responde por 0,1% do volume nacional de garrafão. Preço médio calculado sobre volume pequeno é instável, e uma diferença de 5,8x entre pontas diz menos do que parece.
O padrão robusto está na correlação, não nas pontas: quanto maior o volume produzido, menor o preço por litro (correlação de -0,35 entre os logaritmos). É o que se espera de escala e concorrência — e sugere que a água é cara onde se produz pouco, não onde se produz muito.
Limites desta leitura
É preço de produtor, não de varejo. O valor declarado é o da venda pela fonte envasadora. O que o consumidor paga inclui distribuição, varejo e tributos, que não estão aqui. A queda real medida é na saída da fábrica.
Deflacionar exige escolher um índice. Usei o IPCA cheio, que é a inflação do consumidor. Um índice de insumos industriais daria outra resposta, e a pergunta seria outra: aqui interessa o preço da água contra o custo de vida.
A média anual do índice, não dezembro. Os valores do AMB são fluxos do ano inteiro, então o deflator correto é a média do índice ao longo dos doze meses. Usar dezembro superestimaria a correção.
É produção, não consumo. Água envasada em um estado e bebida em outro conta no estado de origem. O gráfico por UF descreve onde a água é envasada e vendida pela fonte, não onde é bebida — e por isso não se presta a leitura per capita nem a cruzamento com acesso a água tratada.
2024 continua sendo um ano suspeito. O artigo sobre embalagens mostra que o volume de 2024 é inflado por um artefato de declaração em São Paulo. As conclusões aqui são de tendência de quinze anos e não dependem dele, mas o nível de qualquer ano isolado, sim.
NotaReprodução
Dados: ANM, Anuário Mineral Brasileiro, snapshot de 2026-07-18. Deflator: IPCA, série 433 do SGS/Banco Central, snapshot de 2026-07-19. Ambos versionados com checksum em dados_brutos/. Código em code/01_ler.R e code/02_ipca.R.