A série histórica que encolheu sem nota de rodapé

Doze linhas somem ao longo de doze relatórios anuais — seis aos poucos, seis de uma vez. E o problema não é do órgão que estudei: é de quase todo mundo que publica série histórica.

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Doze linhas somem ao longo de doze relatórios anuais — seis aos poucos, seis de uma vez. E o problema não é do órgão que estudei: é de quase todo mundo que publica série histórica.
Data de Publicação

9 de setembro de 2026

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Todo relatório anual do Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal traz uma tabela chamada “Série Histórica dos Quantitativos Alcançados na Execução dos Serviços”. É a página que um jornalista com pressa procuraria: uma linha por atividade, uma coluna por ano, tudo já comparado.

Escolhi essa série justamente porque ela é boa: doze anos publicados sem falha, em formato estável, por um órgão que divulga tudo em PDF aberto. É por ser boa que ela serve para mostrar um problema que quase toda série histórica do setor público tem — e que não aparece enquanto se lê um relatório de cada vez.

Baixei os doze, de 2014 a 2025, e coloquei as tabelas lado a lado. Não para conferir os números, mas para ver quais linhas atravessavam a década inteira.

Doze não atravessaram. E, o que me interessou mais, não sumiram do mesmo jeito.

O inventário das ausências

Tabela 1
Atividades que somem da série histórica
Última aparição anterior a 2025, entre os doze relatórios
Atividade Primeiro ano Último ano Anos com dado
Catação de resíduos 2014 2018 5
Lavagem de abrigos de passageiros 2014 2019 8
Serviços diversos 2017 2019 3
Transporte de chorume 2017 2019 3
Coleta de resíduos de serviços de saúde 2014 2021 8
Resíduos domiciliares aterrados 2014 2021 8
Catação de papel em áreas verdes 2017 2023 7
Lavagem de vias 2017 2023 7
Limpeza de equipamentos e bens públicos 2020 2023 4
Pintura de meios-fios 2014 2023 12
Retirada de entulho dos PEVs 2017 2023 7
Transferência de resíduos 2014 2023 10
Destacadas em âmbar: as que desaparecem juntas na edição de 2024.

Seis saem uma a uma, entre 2018 e 2021, cada uma com sua história administrativa:

Atividade Última aparição O que aconteceu
Catação de resíduos 2018 Muda de unidade (hectares → equipe) e depois some
Transporte de chorume 2019 Vira “tratamento de chorume”, outra medida
Lavagem de abrigos de passageiros 2019 Absorvida em “lavagem de vias”
Serviços diversos 2019 Categoria residual, extinta sem substituta
Resíduos domiciliares aterrados 2021 Substituída por “aterrado no ASB”
Coleta de resíduos de serviços de saúde 2021 Mudança de contrato altera o que se conta

Nenhuma dessas linhas foi encerrada com nota de rodapé dizendo “a partir deste ano não medimos mais isto”. Elas simplesmente não estão na tabela do ano seguinte. Quem só olha o relatório mais recente não tem como saber que existiram.

As outras seis — em âmbar na tabela acima — são um caso diferente, e eu só as enxerguei porque empilhei os doze relatórios.

A poda de 2024

As seis restantes não saem uma a uma. Elas param todas no mesmo ano, 2023, o que é padrão demais para ser coincidência de operação.

E não é. O que muda não é o serviço, é a tabela. Os relatórios de 2019 a 2023 publicam 20 atividades na série histórica. O de 2024 publica 13. O de 2025, 12.

São sete linhas que saem de uma vez, e nenhuma entra no lugar: catação de papel em áreas verdes, retirada de entulho dos PEVs, lavagem de vias, limpeza de equipamentos e bens públicos, pintura de meios-fios, transferência de resíduos e transporte de chorume.

Seis delas ainda estavam vivas — tinham número novo em 2023. A sétima, transporte de chorume, é um caso à parte que vale registrar: ela vinha sendo republicada desde 2019 com o mesmo dado parado, uma linha que ocupava espaço na série sem medir nada havia quatro anos. Some junto com as outras seis.

Os serviços não pararam: continuou-se varrendo, pintando meios-fios e transferindo resíduos em 2024. O que mudou foi a tabela, que passou a caber em treze linhas.

E aqui está o ponto que interessa, porque ele não é sobre este relatório: não há nota dizendo o que aconteceu com as sete linhas — e é provável que não haja porque essa nota não é atribuição de ninguém. Alguém define o conteúdo da tabela; ninguém tem, no fluxo de trabalho, a tarefa de registrar que o conteúdo mudou. A lacuna é de processo, não de intenção.

O efeito prático recai sobre quem usa o dado depois. Uma linha que some sozinha levanta suspeita. Sete que somem juntas, numa tabela que continua se chamando “série histórica”, parecem apenas uma tabela menor.

A única que se explicou

Há uma exceção, e ela merece crédito. A linha de resíduos de serviços de saúde some depois de 2021, mas o relatório de 2022 traz um asterisco:

Com a mudança na contratação da coleta de RSS (Ata SRP), os dados informados a partir de março de 2021 incluem apenas RSS coletados nas instalações do SLU.

Isso é exatamente o que uma série histórica precisa. O número cai de 3.130 toneladas (2020) para 507 (2021) e depois para 0,7 (2022) — uma queda de 99,98% que, sem a nota, pareceria o colapso da coleta hospitalar do Distrito Federal. Não é. É a mesma coleta, medida em outro perímetro.

Ou seja: a explicação existiu, e é exemplar. O que falta não é disposição para explicar — é um lugar onde a explicação viaje junto com o número, em vez de ficar num asterisco de uma edição só.

Por que isso importa mais do que parece

Quando uma linha desaparece, o efeito prático é que o passado fica melhor ou pior do que foi, dependendo de quem estiver contando a história.

Peguem “resíduos domiciliares aterrados” contra “aterrado no ASB”. As duas linhas convivem entre 2017 e 2021 — e a relação entre elas muda no meio do caminho:

Figura 1: Duas linhas, dois perímetros, o mesmo aterro

Em 2017, “domiciliares aterrados” marca 809.085 t e “aterrado no ASB” marca 252.703 t. Um número é três vezes o outro, no mesmo ano, no mesmo relatório. Não há erro: o DF estava encerrando o Aterro Controlado do Jóquei e abrindo o Aterro Sanitário de Brasília. Parte do resíduo ia para um, parte para o outro.

Em 2018 as duas já quase se encostam. E a partir de 2019 param de ser duas medidas: marcam 800.872 t as duas, o mesmo número até a última tonelada. Em 2020 diferem em 1 t; em 2021, em 18 t.

Isso não é coincidência nem erro de arredondamento — é o Jóquei terminando de fechar. Quando todo o resíduo domiciliar do DF passa a ir para o Aterro Sanitário de Brasília, “resíduos domiciliares aterrados” e “aterrado no ASB” viram a mesma frase dita de dois jeitos. Manter as duas linhas deixa de fazer sentido, e a partir de 2022 só sobrevive a do ASB.

Das doze ausências, essa é a que se explica sozinha: a série mostra as duas linhas se fundindo antes de uma delas sair. Quem empilha os relatórios enxerga o motivo sem precisar de nota. Quem lê só o de 2022 não enxerga nada — e nota, também aqui, não houve.

E a armadilha continua de pé para quem chega depois. Quem montar a série pegando “o aterro” ano a ano vai encontrar um salto de 252 mil para 749 mil toneladas entre 2017 e 2018 e concluir que o DF triplicou a produção de lixo em doze meses.

Não triplicou. O lixo mudou de endereço.

O que dá para fazer com isso

Nada aqui é denúncia. Tudo que usei é público, está em PDF no site do órgão, e a maior parte das mudanças tem explicação administrativa banal: trocou o contrato, mudou a unidade de medição, unificou-se o serviço. O órgão que escolhi estudar publica mais, e por mais tempo, que muitos.

A questão é outra, e vale para qualquer instituição que publique série histórica: a continuidade de uma série é uma decisão, não uma consequência. Alguém escolhe manter a linha, ou escolhe não manter. Mas essa escolha quase nunca é registrada — não por descuido, e sim porque registrá-la não está no fluxo de trabalho de ninguém. E como quase ninguém empilha doze relatórios para conferir, ela passa despercebida por anos.

O conserto é barato. Uma coluna a mais na tabela — não com um número, com uma frase: o que mudou na forma de medir isto desde o ano passado. Ou, mais simples ainda, uma nota quando uma linha entra e outra quando uma linha sai.

Quem produz a série dentro de um órgão dificilmente enxerga o problema, porque vê uma edição por vez, e cada edição isolada está correta. Quem olha de fora enxerga, mas não tem como corrigir. O buraco fica exatamente no meio — e é por isso que apontar de fora só resolve se alguém puder levar para dentro.

Daí o convite, que é a parte útil deste texto: se você trabalha com dados em algum órgão, empilhe as últimas edições da série que você publica e conte quantas linhas atravessaram inteiras. É uma tarde de trabalho, e costuma render uma conversa boa com quem produz a tabela.


Dados, scripts e ressalvas em Relatórios Anuais do SLU/DF. Fonte primária: relatórios anuais do SLU, 2014 a 2025.


Dados, código e ressalvas: relatorios-slu.

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