Metade dos cargos vagos nunca existiu de verdade

A coluna que ninguém olha separa o buraco real do buraco de papel

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A coluna que ninguém olha separa o buraco real do buraco de papel
Data de Publicação

7 de outubro de 2026

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No artigo anterior eu mostrei que o Executivo federal tem 231.887 cargos vagos e que essa proporção quase não mudou em dez anos. Agora vou desmontar esse número, porque metade dele não é o que parece.

Três colunas, não duas

A planilha mensal do Painel Estatístico de Pessoal traz quatro quantidades por órgão. Quase toda análise usa duas — aprovada e ocupada — e calcula o vago pela diferença. Mas existe uma terceira coluna no meio, e ela muda tudo:

  • aprovada — cargos criados por lei.
  • distribuida — desses, quantos o Órgão Central de Gestão de Pessoas efetivamente alocou a algum órgão.
  • ocupada — desses, quantos têm um servidor dentro.

Isso permite partir a vacância em duas coisas com naturezas completamente diferentes:

Conta O que significa
Nunca distribuído aprovada − distribuida A lei autorizou o cargo. Ele nunca foi alocado a lugar nenhum. Não há vaga esperando concurso: há uma linha numa lei.
Vago após distribuir distribuida − ocupada O cargo existe, está lotado num órgão, e está esperando alguém. É o buraco de verdade.

Somadas, as duas dão o total de cargos vagos. Separadas, contam histórias opostas.

O que a série mostra

Figura 1: A área azul é vacância que nunca virou estrutura. Ela ultrapassa a rosa em 2024 e não volta.
Figura 2: Oito anos de estabilidade, depois um salto de 17 pontos em dois anos.

Janeiro de cada ano:

Ano Vagos Nunca distribuídos Vagos após distribuição % fantasma
2016 257.779 91.195 166.584 35,4%
2017 257.156 85.752 171.404 33,3%
2018 265.351 83.920 181.431 31,6%
2019 248.578 80.273 168.305 32,3%
2020 246.778 86.451 160.327 35,0%
2021 237.565 83.528 154.037 35,2%
2022 247.149 88.168 158.981 35,7%
2023 248.225 87.021 161.204 35,1%
2024 250.683 113.171 137.512 45,1%
2025 244.210 126.926 117.284 52,0%
2026 233.136 115.959 117.177 49,7%

Durante oito anos, de 2016 a 2023, a fração fantasma da vacância ficou ancorada entre 31% e 36%. Estável, sem tendência.

Aí, entre 2023 e 2025, ela salta de 35,1% para 52,0%.

O que aconteceu ali

Não foi a vacância que cresceu — ela caiu. O que mudou foi a composição. Em dois anos, o número de cargos distribuídos despencou de 639.642 para 583.992: 55 mil cargos que estavam alocados a órgãos deixaram de estar.

O total de cargos aprovados em lei caiu bem menos no mesmo período. O resultado é uma máquina em que a autorização legal permanece no papel, mas a alocação a órgãos reais recuou.

E o “buraco de verdade” — o cargo distribuído esperando servidor — caiu de 161 mil para 117 mil. Uma queda de 27% em dois anos.

Ou seja: as duas metades do número foram em direções opostas. Quem olha só o total vê estabilidade, e a estabilidade é uma média de dois movimentos fortes que se cancelam.

Vale uma ressalva de método: essa inflexão coincide com o período de reformas ministeriais de 2023, quando pastas foram criadas, partidas e renumeradas em massa. Parte do movimento pode ser reclassificação administrativa, não decisão de política de pessoal. Separar as duas exige documentação normativa que o dado sozinho não traz — e eu não vou afirmar o que não posso demonstrar.

Onde a vacância fantasma se concentra

Ela não está espalhada. Em maio de 2026, treze órgãos respondem por 80% de todos os cargos nunca distribuídos, e os três maiores sozinhos fazem 56,5%.

Figura 3: Treze órgãos concentram 80% do total. Os três maiores fazem 56,5%.
Órgão Aprovados Distribuídos Nunca distribuídos % da pasta
Ministério da Educação 28.568 1.881 26.687 93,4%
Ministério da Fazenda 46.685 20.030 26.655 57,1%
Min. da Gestão e Inovação 24.129 11.935 12.194 50,5%
Ministério da Saúde 63.974 58.449 5.525 8,6%
Min. da Agricultura e Pecuária 9.409 5.689 3.720 39,5%
Agência Bras. de Inteligência 4.577 1.447 3.130 68,4%
Min. do Trabalho e Emprego 8.534 5.468 3.066 35,9%
Controladoria-Geral da União 5.060 2.671 2.389 47,2%
Órgão Central do SIPEC 2.345 0 2.345 100,0%

O caso do MEC salta aos olhos: de 28.568 cargos aprovados em lei, 1.881 foram distribuídos. Noventa e três por cento da estrutura autorizada do ministério nunca foi alocada.

Aqui é preciso cuidado, e vou explicitar o limite. O MEC tem uma peculiaridade estrutural: universidades e institutos federais têm códigos de órgão próprios na base (a família 26xxx). É plausível que o código central do MEC funcione como um reservatório de cargos autorizados que são depois distribuídos a essas instituições, e que a foto de um mês pegue esse reservatório cheio. Isso é uma hipótese, não uma conclusão — confirmá-la exige entender o fluxo administrativo de distribuição, que não está no dado.

Já o Órgão Central do SIPEC, com 2.345 cargos aprovados e zero distribuídos, é inequívoco: é um estoque de autorização pura.

Por que isso importa

Quando alguém diz “faltam 232 mil servidores no Executivo federal”, está fazendo duas afirmações embutidas: que existem 232 mil postos de trabalho definidos, e que eles estão vazios.

A primeira é falsa para metade do número.

Isso muda a conversa de política pública de forma concreta. Um cargo distribuído e vago é um problema de provimento: precisa de concurso, de orçamento, de autorização para nomear. Um cargo nunca distribuído é um problema de outra natureza — ou é reserva legal deliberada, ou é autorização obsoleta que ninguém revogou, ou é gargalo no próprio processo de distribuição.

São diagnósticos diferentes, com remédios diferentes. Tratá-los como o mesmo número atrapalha os dois.

E há uma implicação para quem cobra: a métrica que interessa para acompanhar capacidade estatal não é o total de vagos. É distribuida − ocupada — que caiu 27% em dois anos e que quase ninguém está olhando.

Como reproduzir

library(arrow); library(dplyr)

orgaos <- read_parquet("dados/cargos_por_orgao.parquet")

orgaos |>
  filter(competencia == 202605) |>
  summarise(
    aprovada          = sum(aprovada),
    distribuida       = sum(distribuida),
    ocupada           = sum(ocupada),
    nunca_distribuido = sum(aprovada) - sum(distribuida),
    vago_pos_distrib  = sum(distribuida) - sum(ocupada)
  )

Compilação completa em code/01_compilar.R. Descarte 2018-03, 2025-04 a 2025-06 e 2026-06 — os motivos estão no artigo anterior.


Próximo: Por que os cargos vagam — 77% é aposentadoria, e a segunda causa não é a que você imagina.


Dados, código e ressalvas: cargos-executivo-federal.

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