Metade dos cargos vagos nunca existiu de verdade
A coluna que ninguém olha separa o buraco real do buraco de papel
No artigo anterior eu mostrei que o Executivo federal tem 231.887 cargos vagos e que essa proporção quase não mudou em dez anos. Agora vou desmontar esse número, porque metade dele não é o que parece.
Três colunas, não duas
A planilha mensal do Painel Estatístico de Pessoal traz quatro quantidades por órgão. Quase toda análise usa duas — aprovada e ocupada — e calcula o vago pela diferença. Mas existe uma terceira coluna no meio, e ela muda tudo:
aprovada— cargos criados por lei.distribuida— desses, quantos o Órgão Central de Gestão de Pessoas efetivamente alocou a algum órgão.ocupada— desses, quantos têm um servidor dentro.
Isso permite partir a vacância em duas coisas com naturezas completamente diferentes:
| Conta | O que significa | |
|---|---|---|
| Nunca distribuído | aprovada − distribuida |
A lei autorizou o cargo. Ele nunca foi alocado a lugar nenhum. Não há vaga esperando concurso: há uma linha numa lei. |
| Vago após distribuir | distribuida − ocupada |
O cargo existe, está lotado num órgão, e está esperando alguém. É o buraco de verdade. |
Somadas, as duas dão o total de cargos vagos. Separadas, contam histórias opostas.
O que a série mostra
Janeiro de cada ano:
| Ano | Vagos | Nunca distribuídos | Vagos após distribuição | % fantasma |
|---|---|---|---|---|
| 2016 | 257.779 | 91.195 | 166.584 | 35,4% |
| 2017 | 257.156 | 85.752 | 171.404 | 33,3% |
| 2018 | 265.351 | 83.920 | 181.431 | 31,6% |
| 2019 | 248.578 | 80.273 | 168.305 | 32,3% |
| 2020 | 246.778 | 86.451 | 160.327 | 35,0% |
| 2021 | 237.565 | 83.528 | 154.037 | 35,2% |
| 2022 | 247.149 | 88.168 | 158.981 | 35,7% |
| 2023 | 248.225 | 87.021 | 161.204 | 35,1% |
| 2024 | 250.683 | 113.171 | 137.512 | 45,1% |
| 2025 | 244.210 | 126.926 | 117.284 | 52,0% |
| 2026 | 233.136 | 115.959 | 117.177 | 49,7% |
Durante oito anos, de 2016 a 2023, a fração fantasma da vacância ficou ancorada entre 31% e 36%. Estável, sem tendência.
Aí, entre 2023 e 2025, ela salta de 35,1% para 52,0%.
O que aconteceu ali
Não foi a vacância que cresceu — ela caiu. O que mudou foi a composição. Em dois anos, o número de cargos distribuídos despencou de 639.642 para 583.992: 55 mil cargos que estavam alocados a órgãos deixaram de estar.
O total de cargos aprovados em lei caiu bem menos no mesmo período. O resultado é uma máquina em que a autorização legal permanece no papel, mas a alocação a órgãos reais recuou.
E o “buraco de verdade” — o cargo distribuído esperando servidor — caiu de 161 mil para 117 mil. Uma queda de 27% em dois anos.
Ou seja: as duas metades do número foram em direções opostas. Quem olha só o total vê estabilidade, e a estabilidade é uma média de dois movimentos fortes que se cancelam.
Vale uma ressalva de método: essa inflexão coincide com o período de reformas ministeriais de 2023, quando pastas foram criadas, partidas e renumeradas em massa. Parte do movimento pode ser reclassificação administrativa, não decisão de política de pessoal. Separar as duas exige documentação normativa que o dado sozinho não traz — e eu não vou afirmar o que não posso demonstrar.
Onde a vacância fantasma se concentra
Ela não está espalhada. Em maio de 2026, treze órgãos respondem por 80% de todos os cargos nunca distribuídos, e os três maiores sozinhos fazem 56,5%.
| Órgão | Aprovados | Distribuídos | Nunca distribuídos | % da pasta |
|---|---|---|---|---|
| Ministério da Educação | 28.568 | 1.881 | 26.687 | 93,4% |
| Ministério da Fazenda | 46.685 | 20.030 | 26.655 | 57,1% |
| Min. da Gestão e Inovação | 24.129 | 11.935 | 12.194 | 50,5% |
| Ministério da Saúde | 63.974 | 58.449 | 5.525 | 8,6% |
| Min. da Agricultura e Pecuária | 9.409 | 5.689 | 3.720 | 39,5% |
| Agência Bras. de Inteligência | 4.577 | 1.447 | 3.130 | 68,4% |
| Min. do Trabalho e Emprego | 8.534 | 5.468 | 3.066 | 35,9% |
| Controladoria-Geral da União | 5.060 | 2.671 | 2.389 | 47,2% |
| Órgão Central do SIPEC | 2.345 | 0 | 2.345 | 100,0% |
O caso do MEC salta aos olhos: de 28.568 cargos aprovados em lei, 1.881 foram distribuídos. Noventa e três por cento da estrutura autorizada do ministério nunca foi alocada.
Aqui é preciso cuidado, e vou explicitar o limite. O MEC tem uma peculiaridade estrutural: universidades e institutos federais têm códigos de órgão próprios na base (a família 26xxx). É plausível que o código central do MEC funcione como um reservatório de cargos autorizados que são depois distribuídos a essas instituições, e que a foto de um mês pegue esse reservatório cheio. Isso é uma hipótese, não uma conclusão — confirmá-la exige entender o fluxo administrativo de distribuição, que não está no dado.
Já o Órgão Central do SIPEC, com 2.345 cargos aprovados e zero distribuídos, é inequívoco: é um estoque de autorização pura.
Por que isso importa
Quando alguém diz “faltam 232 mil servidores no Executivo federal”, está fazendo duas afirmações embutidas: que existem 232 mil postos de trabalho definidos, e que eles estão vazios.
A primeira é falsa para metade do número.
Isso muda a conversa de política pública de forma concreta. Um cargo distribuído e vago é um problema de provimento: precisa de concurso, de orçamento, de autorização para nomear. Um cargo nunca distribuído é um problema de outra natureza — ou é reserva legal deliberada, ou é autorização obsoleta que ninguém revogou, ou é gargalo no próprio processo de distribuição.
São diagnósticos diferentes, com remédios diferentes. Tratá-los como o mesmo número atrapalha os dois.
E há uma implicação para quem cobra: a métrica que interessa para acompanhar capacidade estatal não é o total de vagos. É distribuida − ocupada — que caiu 27% em dois anos e que quase ninguém está olhando.
Como reproduzir
library(arrow); library(dplyr)
orgaos <- read_parquet("dados/cargos_por_orgao.parquet")
orgaos |>
filter(competencia == 202605) |>
summarise(
aprovada = sum(aprovada),
distribuida = sum(distribuida),
ocupada = sum(ocupada),
nunca_distribuido = sum(aprovada) - sum(distribuida),
vago_pos_distrib = sum(distribuida) - sum(ocupada)
)Compilação completa em code/01_compilar.R. Descarte 2018-03, 2025-04 a 2025-06 e 2026-06 — os motivos estão no artigo anterior.
Próximo: Por que os cargos vagam — 77% é aposentadoria, e a segunda causa não é a que você imagina.
Dados, código e ressalvas: cargos-executivo-federal.